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Um monumental River derrota o Boca e ganha a Libertadores

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Os jogadores do River com a taça da Copa Libertadores. JUAN MEDINA REUTERS

O jogo dos séculos em muitos séculos, que quase dura um século, coroou o River de uma forma monumental. Glória infinita para os millonarios após uma noite apoteótica em Madri, a 10.000 quilômetros de sua casa. Uma façanha histórica contra o Boca, que levará tempo para ser suplantada, pelo menos até outra hipotética final da Libertadores em que cruze com o vizinho irreconciliável. Uma rivalidade semelhante, tão gigantesca desde o paleolítico do futebol, não deixa consolo à vista, por mais que o Boca some seis Libertadores e o River, quatro. Como era de esperar em um enredo que começou há quase um mês, a Taça só teve destinatário depois da prorrogação. Um thriller bem no estilo argentino que, pelo menos antes e durante a partida, terminou em harmonia. Tomara que fique consolidado o Tratado de Madrid.

Tamanha é a entrega sentimental de uns e outros, há tanto em jogo nas arquibancadas, nos gabinetes e nas torcidas que para o campo quase nada sobra. Na grama imaculada da Monumental Bombonera do Bernabéu, River e Boca se dispuseram a brincar de não jogar. Muito trabalho pesado, os rapazes suam e suam como um regador, e um catálogo de empurrões, lances de judocas, tapas, atropelos, obstruções... Uma competitividade colossal taxativamente proibida para coroinhas. E uma sofredora: a bola.

Qualquer um poderia ter sido expulso por maus-tratos, por romper os ligamentos em mais de uma ocasião. Ante a feroz pilhagem do futebol europeu, que não leva em consideração se estão no jardim da infância, até os totêmicos clubes argentinos têm que se contentar em recrutar quem já caducou fora ou se destaca nos jogos de divisões inferiores em seu campeonato. Claro, em Madri não faltou emoção em um embate corajoso, só sedado com bons gols.

E vá saber se por um medo paralisante, pés deslocados ou ambas as coisas, o fato é que o encontro começou tão acidentado quanto um passeio lunar. A bola saltava como se tivesse sido solta naquele campo astral. Tão agreste era o confronto que captava a atenção dos neutros (alguns dos 62.282 espectadores), quando ocorriam mancadas ainda mais categóricos do que as já chamativas. Um mostruário de falhas: um recuo longo de bola de Pínola de um jeito torcido quase surpreende seu camarada Armani, o goleiro do River. Por outro lado, um toque destroçado de Magallán na bola resultou em um escanteio para os millonarios, com um chute de Fernández para as galerias. Palacios, na órbita da Europa, tentava com pouco sucesso desfazer toda jogada em que se metia qualquer jogador vermelho e branco. O Boca, que não tem um Palacios, confiava em Pablo Pérez, jogador de futebol com cicuta nas solas. Mais direto o Boca, com mais carretel o River. Imprecisos os dois.

O gol do Boca veio de outro dos inúmeros desapontamentos. Surgiu de um ataque do River e um deslize do goleiro xeneize Andrada. A bola saiu cuspida para o uruguaio Nández. E o charrúa mereceu o brinde dos espectadores incolores que imploravam uma pequena fagulha de futebol. Em sua ajuda respondeu em disparada Benedetto, mais ágil do que os rígidos meio-campistas do River. Os garotos de Gallardo remavam como nunca. Os de Barros Schelotto, com confetes por se refugiarem nas cordas.

A expulsão de Barrios e a perna de Andrada
Não houve dissimulações e cada um expôs a história prevista, embora as máculas tivessem sido reduzidas e a partida estivesse um tanto mais graciosa. Para o Boca era um esforço oceânico armar uma contraofensiva. Para o River era um desafio alpino chegar até Andrada. Para os de Núñez, talvez com um pouco maior de finesse, fazia falta Palacios, perdido em um encontro tão selvagem. Mas ele encontrou uma fresta, se aliou a Fernandez e Pratto, até então apenas um combatente com os meio-campistas adversários, viu a porta aberta. Inesperadamente, em um duelo tão legionário, com tantos crocodilos, os gols chegaram como afilhados das melhores jogadas da noite. Consolidado o empate, já não havia remédio e esta final para a eternidade se eternizou um pouco mais com a prorrogação. Os jogadores de futebol, com o coração nos ossos e o corpo alquebrado. Seus militantes, com a alma em dieta e gargantas cozidas sobre fogo, em Madri e Buenos Aires.

Logo no início da prorrogação foi expulso Barrios, que já tinha um amarelo, por um pisão em Palacios. Tudo seguia a favor do River, obrigado pela vantagem numérica. Para completar, Andrada, seu goleiro, com uma perna rígida. Angústia para o Boca, então já conduzido por Gago, que ainda tinha algum gás, por mais que lhe falhasse a carroceria. No seu compasso, os pênaltis eram o horizonte da resistência xeneize. A geometria do River já era outra desde que na hora certa irrompeu o pequeno e habilidoso Quintero. Finalmente alguém intrépido.

Tosquiado o Boca e com o colombiano como agitador, o êxtase millonario chegou aos quatro minutos do segundo tempo da prorrogação. Quintero arrebentou a meta do coxo Andrada com uma esquerda explosiva, outro grande gol. Os da Bombonera se juntaram a Tévez, um pretoriano do Boca prestes a sair de cena. Não havia mais remédio, apesar do chute na trave do xeneize Jara, faltando um piscar de olhos para o encerramento. Precedente do 3 x 1 de Pity Martínez. O River levou a glória monumental de uma final que nunca parecia ter fim. E vai deixar muito papo, piadas e gozações de geração em geração.

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Um monumental River derrota o Boca e ganha a Libertadores
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